Alma de Criança

Mãe menina, mãe criança, na minha infância você foi o centro do meu mundo.

Divertida, brincalhona, emotiva e carinhosa, você era tudo para mim.

Mãe menina, mãe criança, eu fui crescendo e me distanciando de você.

(…)

A alma criança que te habitava começou a mostrar um outro lado, o exagero, a intensidade, você às vezes me assustava, me afastava.

Mãe menina, mãe criança, envelhecemos e fomos gradualmente invertendo os papéis. Já não te idolatrava, não te entendia, tentava te moldar à minha personalidade, esperava que fosse algo que jamais poderia ser.

Mãe menina, mãe criança, no final virei teu pai, que por vezes achava necessário te repreender, controlar. Cuidar, é claro, mas neste mister por vezes deixei de te dar carinho, que era só do que necessitava.

Hoje entendo que tua alma criança é o que havia de mais belo em você, o que te definia como filha, mãe, irmã, tia, avó incrível que você foi para todos que te amam. Não à toa as crianças te adoravam.

Mãe menina, mãe criança, para mim você foi a melhor mãe que poderia ter sido. Amor, carinho, dedicação, você me ofereceu o máximo que podia. Este filho não sabe se fez o mesmo por você. Você partiu sem avisar, inconsequente como toda criança, tua alma foi leve, mas o meu coração está pesado, partido. Não tive tempo para me despedir. Espero que tenha partido sabendo que te amo, e que meu amor jamais morrerá.

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Em um 31 de janeiro ele precisou partir. Não que desejasse, mas não pôde evitar. Eles tiveram tempo para dançar a valsa do casamento, sonhar por pouco mais de  dois anos e mais nada.

Aos 27 anos, ela não teve alternativa, seguiu em frente. Tocou a vida, mas sempre se recordava dele. Nestes momentos, tinha  sempre um sorriso no rosto. Viveram pouco tempo juntos, mas o olhar e a saudade por ela demonstrada mostrava que foram muito felizes.

Não, ela não teve uma vida feliz. Esteve sempre marcada pela perda.  A menina alegre e inconsequente de outros tempos continuou menina, mas com uma boa dose de amargura. Vivia por e para o filho que ele lhe deixara.  Contou com o amparo dos pais e irmãos e fez o seu melhor.

Apesar de tudo, sua alma criança lhe permitiu breves momentos de felicidade. Era franca e verdadeira, até ao limite do tolerável. Uma criança grande, era apaixonada pelos sobrinhos e netos, e todas as crianças a adoravam. Era aquela tia e avó que, enquanto teve saúde, sentava e brincava junto.

“vamos passear no bosque, enquanto seu lobo não vem.. vamos passear no bosque.. tá pronto seu lobo? …não, tô colocando a meia…tá pronto seu lobo?… não, tô amarrando o sapato…Tá pronto…TÔOOOO E VOU TE PEGAR!!!”

Da minha primeira infância, essa era a brincadeira que começava o dia. Com  a mão embaixo do lençol, ante o suspense da chegada traiçoeira do lobo mau, era difícil parar de rir.

Eram muitas as brincadeiras. Quando ela voltava do trabalho eu ficava na porta, ansioso, esperando. Por mais cansada que estivesse, sempre me dava a atenção que eu precisava. Trazia sempre uma balinha de goma, um caramelo, uma bobagem qualquer. Sempre um doce, cada dia um. Culpa dela que eu sou formiga. Abraçava-me, beijava, colocava no colo e brincávamos à beça.

Teve alguns namorados, o mais sério deles a desejava, mas não a mim.  Sem chance.

Ele pacientemente esperou este tempo todo. Cinquenta e quatro anos. Hoje, 31 de janeiro, devem estar dançando uma outra valsa, para celebrar o reencontro.

Marcos Bittencourt

Como Procurador do Estado de São Paulo, entre 1989 e 1997, atuou na Procuradoria Fiscal, em setor encarregado da defesa dos interesses fazendários nas ações de conhecimento (ICMS, IPVA, etc.) movidas em face do Estado de São Paulo. Entre 1998 e 2004, atuou na Procuradoria Judicial e na Procuradoria Regional de Campinas. Após 2004, experiência como autônomo e em escritório de médio porte, na área cível em geral (contratos, imobiliário, família, consumidor etc.). Capacitado como mediador judicial.

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